segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Estúpido

Como Me Tornei Estúpido Como Me Tornei Estúpido by Martin Page


My rating: 2 of 5 stars
Nada é mais francês do que a obra “Como me tornei um estúpido”, de Martin Page. O livro, que se tornou um cult dos anos 2000, narra a história de Antoine, um jovem cuja inteligência excessiva o faz sofrer demais com o mundo. Assim, após tentar, em vão, o alcoolismo e o suicídio, Antoine resolve se tornar estúpido.
O mote parece sedutor, mas é um truque: Antoine não se insurge contra sua hipersensibilidade intelectual diante das injustiças do mundo. Se insurge contra o fato de suas habilidades, como o aramaico ou o conhecimento do cinema de Frank Capra, não serem bem remuneradas. Antoine é apenas mais um jovem francês que protesta contra um Estado que não pode mais pagar as contas de seus pequenos e inúteis prazeres intelectuais, o que acaba submetendo-o ao maior dos perigos para um intelectual: o trabalho.
Não me parece ser outra a razão pela qual a estupidez do personagem ser a adoção de um estilo de vida yuppie. Até mesmo seu “batismo”, sua passagem para a nova vida, não poderia ser mais óbvia: uma visita ao McDonalds, com direito a provar, pela primeira vez, uma Coca-Cola. Logo após ele se torna um operador da bolsa de valores, fica rico (sem querer, diga-se de passagem) e, segundo seus padrões anteriores, se torna um estúpido.
E aí está o ponto central da obra: o autor, através da metáfora da estupidez, ataca pragas do mundo contemporâneo, como o “consumismo” e a “sociedade de massas” e, consequentemente, os Estados Unidos. Nada disso é novidade, já que esse ressentimento (sim, ressentimento) francês contra os EUA é recorrente há décadas. Me parece que é também é um desdobramento do ódio intelectual ao pragmatismo que rende dinheiro.
Um autor que fala bem desse sentimento é o conservador americano Enerst van der Haag em um texto que trata da hostilidade dos intelectuais ao capitalismo: para o autor, este ódio surge do simples fato do capitalista ganhar dinheiro e o intelectual, que alega ser mais esforçado, viver na miséria. É a cara de Antoine e seus amigos deslocados, cujas habilidades não são valorizadas pelo mercado, essa hostilidade ao mundo, chamando as pessoas diferentes de estúpidas.
Mas isto é motivo para achar o livro ruim? De forma alguma. Motes idiotas podem render boas obras de arte: o “Encouraçado Potenkim” é uma obra panfletária que idolatra a predominância da massa sem rosto sobre o indivíduo. Mesmo assim, é fabulosa. O problema de “Como me tornei um estúpido”, portanto, é outro. O livro é ruim porque não é bem escrito. Os personagens são mal desenvolvidos e os diálogos são artificiais e pouco verossímeis. Um indício da inabilidade do autor está na personagem Aslee, que fala em versos: o autor não conseguiu, nenhuma vez, reproduzir uma dessas falas. Como, portanto, imaginar esse personagem de forma tangível? O final do livro então é uma idiotice a parte: a intervenção de “Danny Brilhantine” e dos amigos é artificial e forçada. Por fim, para uma obra satírica, ela é bem sem graça.
Como explicar então o sucesso da obra? Bom, creio que ela se encaixe no mesmo grupo de sucesso que filmes como “Os Sonhadores” ou “Edukators”, que se insurgem intelectualmente contra aqueles bons e velhos inimigos: sociedade de massas, consumismo, Bush etc.
E, infelizmente, este discurso parece ser um salvo-conduto para a falta de técnica e talento.

View all my reviews >>

1 comentários:

Daniel disse...

Quando vi "Os Sonhadores", só consegui prestar atenção em Eva Green pelada pra lá e pra cá. E foi uma experiência perturbadora